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Posts Tagged ‘Crônicas’

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Quase um mês sem Veríssimo aqui no blog. Pode demorar, mas sempre voltamos com as crônicas. E uma especial às festas de fim de ano! \o/

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As festas

Aproxima-se a perigosa época das festas. O Natal e o Ano-Novo, como se sabe, despertam os melhores sentimentos das pessoas, e isto pode ter conseguências terríveis. São conhecidos os casos de paixão, alguns até terminando em morte, que começaram em festas de fim de ano, na firma, quando o espírito de conciliação e congraçamento leva as pessoas a baixarem a guarda e aceitarem o que normalmente não aceitariam e a fazerem o que, no resto do ano, nem pensariam, ainda mais depois de beberem um pouco. Nada mais embaraçoso do que, no segundo dia do ano novo, ter de tentar desfazer algum equívoco do fim do ano anterior.

– Dona Teresa, eu…
– Pintinho!
– Pinto. Meu nome é Pinto.
– Humm. Como nós estamos mudados, hein? Na festa…
– Era justamente sobre isso que eu queria lhe falar dona Teresa. Na festa. Algumas coisas foram ditas…
– Só ditas não, não é, Pintinho?
– Pinto. Pois é. Ditas e feitas, que…
– Já sei. Vamos fingir que nada aconteceu.
– Eu prefiria.
– Muito bem. Só não sei o que vou dizer ao papai.
– O que que tem o seu pai?
– Ele está vindo de Cachoeiro para o casamento.

Outra coisa perigosa é a pessoa se entusiasmar no fim do ano e decidir mudar. Ser outra pessoa. Deixar velhos vícios e adotar novas atitudes, ou recuperar algumas antigas. Janeiro, ou pelo menos a sua primeira quinzena, é uma espécie de segunda-feira do ano. As ruas ficam cheias de novos virtuosos, pessoas resolvidas a serem melhores do que no ano passado.

– Olhe.
– O que é isso?
– Aquele livro que você me emprestou.
– Eu não me lembro de…
– Faz muito tempo. E, na verdade, você não emprestou. Eu peguei. Eu costumava fazer isso. Nunca mais vou fazer.
– Você pode ficar com o livro. Eu…
– Não! Ajude a me regenerar. Quem fazia essas coisas não era eu. Era outra pessoa. Um crápula. Decidi mudar. Este sou o eu 2006. Comecei devolvendo todos os livros que peguei dos amigos. Acabou com a minha biblioteca, mas que diabo. Me sinto bem fazendo isto. Outra coisa. Precisamos nos ver mais. Eu abandonei os amigos. Abandonei os amigos! Olhe, vou à sua casa este sábado.
– Não. Ahn…
– Prometo não roubar nada.
– Não é isso. É que…
– Já sei. Vamos combinar um jantarzinho lá em casa. A Santa e eu estamos ótimos. Fiz um juramente, na noite de ano bom. Que me regeneraria. E ela me aceitou de volta. Há dois dias que não olho para outra mulher. Dois dias inteiros! Isso era coisa do outro.
– Sim.
– Do crápula.
– Sei…
– Eu era horrível, não era? Diz a verdade. Pode dizer. Uma das coisas que eu resolvi é não bater mais em ninguém. Era ou não era?
– O que é isso?
– Como é que eu podia ser tão horrível, meu Deus?
– Calma. Você está transtornado. Vamos tomar um chopinho.
– Não! Não posso. Jurei que não botaria mais uma gota de álcool na boca.
– Mas um chopinho…
– Está bem. Um. Em honra da nossa amizade recuperada. E escuta…
– O quê?
– Deixa eu ficar com o livro mais uns dias. Ainda não tive tempo de…
– Claro. Toma.
– E vamos ao chope. Lá no alemão, onde tem mais mulher.

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Durante a semana não pude publicar uma crônica do Veríssimo, mas não esqueci:

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O Jargão

Nenhuma figura é tão fascinante quanto o Falso Entendido. É o cara que não sabe nada de nada mas sabe o jargão. E passa por autoridade no assunto. Um refinamento ainda maior da espécie é o tipo que não sabe nem o jargão. Mas inventa.

– Ó Matias, você entende de mercado de capitais…
– Nem tanto, nem tanto…

(Uma das características do Falso Entendido é a falsa modéstia.)

– Você, no momento, aconselharia que tipo de aplicação?
– Bom. Depende do yield pretendido, do throwback e do ciclo refratário. Na faixa de papéis top market – ou o que nós chamamos de topi-maque -, o throwback racai sobre o repasse e não sobre o release, entende?
– Francamente, não.

Aí o Falso Entendido sorri com tristeza e abre os braços como quem diz “É difícil conversar com leigos…”.
Uma variação do Falso Entendido é o sujeito que sempre parece saber mais do que ele pode dizer. A conversa é sobre política, os boatos cruzam os ares, mas ele mantém um discreto silêncio. Até que alguém pede a sua opinião e ele pensa muito antes de se decidir a responder:

– Há muito mais coisa por trás disso do que vocês pensam…

Ou então, e esta é mortal:

– Não é tão simples assim…

Faz-se aquele silêncio que precede as grandes revelações, mas o falso informado não diz nada. Fica subentendido que ele está protegendo as suas fontes em Brasília.

E há o falso que interpreta. Para ele tudo o que acontece deve ser posto na perspectiva de vastas transformações históricas que só ele está sacando.

– O avanço do socialismo na Europa ocorre em proporções direta ao declínio no uso da gordura animal nos países do Mercado Comum. Só não vê quem não quer.

E se alguém quer mais detalhes sobre a sua insólita teoria ele vê a pergunta como manifestação de uma hostilidade bastante significativa a interpretações não ortodoxas, e passa a interpretar os motivos de quem o questiona, invocando a Igreja medieval, os grandes hereges da história, e vocês sabiam que toda a Reforma se explica a partir da prisão de ventre de Lutero?

Mas o jargão é uma tentação. Eu, por exemplo, sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos onde a única linguagem técnica que você precise saber é “Que horas servem o bufê?”. Nunca pisei num veleiro e se pissasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes de equipagem.

Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:

– Recolher a traquineta!
– Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.

O Vizeu é um vento que nasce na costa ocidental da África, faz a volta nas Malvinas e nos ataca a boribordo, cheirando a especiarias, carcaças de baleia e, estranhamente, a uma professora que eu tive no primário.

– Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua!
– Cuidado com a sanfona de Abelardo!

A sanfona é um perigoso fenômeno que ocorre na vela parruda em certas condições atmosféricas e que, se não contido a tempo, pode decapitar o piloto. Até hoje não encontraram a cabeça do comodoro Abelardo.

– Cruzar a spínola! Domar a espátula! Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e dois quartos de trela senão afundamos, e o capitão é o primeiro a pular.
– Cortar o cabo de Eustáquio!

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Mais uma semana, mais uma crônica!

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Batalha

Ninguém entendeu quando o Jorge e a Gisela voltaram da lua-de-mel separadose, em vez de constituírem um lar, constituíram advogados. Afinal, a não ser por alguma revelação insólita – um descobrir que o outro não era do sexo que dizia ser, ou era tarado, ou era, sei lá, um vampiro – , nada que acontece ou deixa de acontecer numa viagem de núpcias é tão terrível que não possa ser resolvido com tempo, compreensão ou terapia. E o sexo não poderia ter sido tão desastroso assim.

– Nã, não – disse o Jorge. – O sexo foi ótimo. O problema foi outro.
– Qual?
– Batalha-naval.

O sexo tinha sido tão bom que Jorge e Gisela ficaram uma semana sem sair da cama. Mas o amor, como se sabe, é como marcação sob pressão no futebol. Por mais bem preparados fisicamente que estejam os jogadores, eles não podem marcar sob pressão os 90 minutos.

E foi para preencher os intervalos entre o sexo que o Jorge propôs a Gisela que jogassem batalha-naval. Tinham o que era preciso no quarto, papel e lápis. Qualquer borda reta serviria como régua para fazerem os quadradinhos. Não precisavam sair da cama. E o vencedor poderia escolher a forma como se amariam, depois da batalha.

– Jota 11.
– Água. Bê quatro.
– Outro submarino.
– Viva eu!

Quem passasse pela porta do quarto dos recém-casados e ouvisse aquilo não entenderia o que acontecia lá dentro. Jorge e Gisela, nus sob os lençóis, um atirando seus mísseis imaginários sobre a frota do outro. Gisela, estranhamente, acertando mais do que Jorge. Que já tinha perdido dois submarinos e um cruzador quando finalmente acertou um disparo.

– Agá nove – cantou Jorge.
– Ih… – lamentou-se Gisela – Parte do meu porta-aviões.
– Arrá! – gritou Jorge, triunfante.
– Ele 12 – tentou Gisele.
– Água, água – disse Jorge, ansioso para terminar o serviço no porta-aviões inimigos – Agá dez!
– Água. Dê 13…
– Água. Agá oito…
– Água. Efe dois…
– Água. Gê nove.
– Água. Ele seis.
– Água. I nove!
– Água. Ene…
– Espera um pouquinho. Como, água?
– Água. Você acertou na água.
– Você me disse que agá nove era parte do seu porta-aviões.
– E é.
– Mas eu disparei em volta do agá nove e não acertei mais nada.
– Exatamente. Só acertou água.
– E onde está o resto do seu porta-aviões?
– E eu vou dizer? Engraçadinho! Tente adivinhar.

Jorge estava de boca aberta. Quando ele conseguiu falar, foi com a voz de quem acaba de encontrar uma nova forma de vida e tem medo de provocá-la.

– Deixa ver se eu entendi. O seu porta-aviões não está todo no mesmo lugar…
– Claro que não! Eu divido em quatro partes, e boto uma bem longe da outra. Assim fica mais difícil de atingir.

Os amigos concordaram que seria perigoso ficar casado com uma mulher que esquarteja e espalhava o seu porta-aviões. Por melhor que fosse o sexo, era preciso pensar no resto da vida, quando os intervalos ficariam cada vez maiores. Jorge nem chegou a contar que os submarinos de Gisela não constavam no diagrama de sua frota. Segundo ela, estavam submergidos, podiam estar em qualquer lugar, nem ela saberia onde encontrá-los. Era melhor pedir o divórcio.

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Alguns dias de atraso, mas aí está mais uma crônica 🙂

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Tintim

Durante alguns anos, o tintim me intrigou. Tintim pot tintim: o que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema métrico, como a braça, a légua, etc. Outro mistério era o triz. Qual a exata definição de um triz? É uma subdivisão de tempo ou de espaço. As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma fração de segundo ou de milímetro. Mas que fração? O triz talvez correspondesse a meio tintim, ou o tintim a um décimo das microcoisas. Há quem diga que não existe uma fração mínima de matéria, que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o infinito para fora – isto é, o espaço sem fim, depois que o Universo acaba – existiria o infinito para dentro. A menor fração da menor partícula do último átomo ainda seria formada por dois trizes, e assim por diante, até a loucura.

Descobri, finalmente, o que significa tintim. É verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, é a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas. Originalmente, portanto, “tintim pot tintim” indicava um pagamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrário de hoje, quando são feitas de papelão e se chocam sem ruído. Numa investigação feita hoje da corrupção no país tintim por tintim ficaríamos tinindo sem parar e chegaríamos a uma nova concepção de infinito.

Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por sim-sim. O gordo incontrolável progrediria pela vida quindim por quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-plim. E você e eu vamos ganhando nosso saláriotin por tin (olha aí, a inflação já levou dois tins). Resolvido o mistério do tintim, que não é uma subdivisão nem de tempo nem de espaço nem de matéria, resta o triz. O Aurelião não nos ajuda. “Triz”, diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para “triz”. Substantivo feminino. Popular. “Icterícia.” Triz quer dizer icterícia. Ou teremos que mudar todas as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de assunto. Acho melhor mudar de assunto. O Universo já tem problemas demais.

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Crônicas do Veríssimo retornando ao blog conforme havia prometido!

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O manjar

Os dois estavam comendo sem falar. Só os dois na mesa, e os dois em silêncio. Aí ele fez um comentário. Só por fazer.

– Não existe nada pior do que risoto frio.

Ela só olhou para ele e continuou mastigando.
Daí a pouco disse:

– Bunda caída.
– O quê?
– bunda caída. É pior do que risoto frio.

Novo silêncio. Depois ela completou:

– E risoto frio tem jeito. É só esquentar.

Mais dois ou três minutos. Ele:

– Bunda caída também tem jeito.
– Como?
– Ginástica. Plástica.

Desta vez o silêncio durou até o fim do jantar. Ela levantou e levou os pratos para a cozinha. Depois, como ela estivesse demorando para voltar, ele gritou:

– Matilde!

Ela apareceu na porta da cozinha.

– Que mais? – disse.
– Sobremesa, ué.
– Não. Que mais? Você já criticou meu risoto, já criticou minha bunda… Que mais?
– EU critiquei sua bunda?
– Eu faço plástica. Me dá o dinheiro que eu faço.
– Tidinha!
– Não seja por isso, Vicente.

Ela desapareceu na cozinha. Ele esperou um pouco e depois foi atrás. Ela estava olhando fixo para uma massa disforme dentro de uma fôrma, em cima do balcão.

– O que é isso? – perguntou ele.
– Manjar branco.

A massa era escura. Ele chegou a abrir a boca para falar, mas decidiu ficar quieto.
Depois, na mesa, comeu o manjar e fez “Mmmmm”.
Ela levantou-se da mesa, pegou algumas coisas no banheiro e no quarto e foi para a casa da Enolina, que tinha comprado uma TV de 29 polegadas. Decidida a não voltar mais.
Aguentava tudo, menos a ironia.

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Vou estrear hoje um novo livro do Veríssimo aqui no blog: Banquete com os Deuses. O livro traz algumas crônicas voltadas para “cinema, literatura, música e outras artes” como está escrito na sua própria capa. É um livro com crônicas mais sérias e complexas, pois exige algum conhecimento prévio de alguns assuntos, mas ainda assim encontramos aquelas crônicas leves e com aquele humor já famoso do autor. \o/

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Boca Aberta

Quando eu era pequeno, não acreditava em beijo de cinema. Achava que eles não podiam estar se beijando de verdade, nos filmes de censura livre. Aquilo era truque. Me contaram que usavam um plástico, que a gente não via, entre uma boca e a outra. Isso no tempo em que as pessoas só se beijavam de boca fechada, pelo menos no cinema americano. Não sei quem me deu esta informação. Alguém ainda mais confuso do que eu.

Nos filmes proibidos até 14 anos, permanecia a idéia de que nos Estados Unidos o sexo era diferente. As pessoas se beijavam – de boca fechada -, depois desapareciam da tela, tudo escurecia e a mulher ficava grávida. Quando se via o beijo do começo ao fim, não havia perigo de a mulher engravidar. Mas quando as cabeças saíam do quadro ainda se beijando, e a tela escurecia, era fatal: vinha filho. Às vezes na cena seguinte.

Durante algum tempo, só filmes europeus eram proibidos até 18 anos. Você entrava no cinema para assistir a um filme “até 18” sabendo que ia ver no mínimo um seio nu, provavelmente da Martinne Carole. Não sei quando apareceu o primeiro seio americano no cinema. Mas me lembro do primeiro filme americano com beijo de boca aberta. Com língua e tudo. Bom, a língua não se via, a língua era presumida. Também não era beijo tipo roto-rooter, beijo de amígdala, como no cinema francês. Mas estavam lá, as bocas abertas, num beijo histórico. Depois do primeiro beijo de boca aberta, foi como se abrissem uma porteira e começasse a passar de tudo. Passa língua, passa peito, passa bunda… E em pouco tempo os americanos estariam transando sem parar. Era inacreditável. Americanos na cama, sem roupa, transando como todo o mundo!

Mas guardei o primeiro beijo de boca aberta no cinema americano porque me lembro de ter tido um pensamento quando o vi. Com aquele misto de carinho divertido e incredulidade com que recordamos nossa infância, que aumenta quanto mais nos distanciamos dela. Me lembro de ter pensado:

– Isso destrói, definitivamente, a teoria do plástico.

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Domingo é dia de Veríssimo!

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Crise

Um dia você estará na praia e fará “Aaaaah…”. Epensará: vida boa. Está bem, não tão boa. Há gente morrendo de fome em várias partes do mundo, inclusive na minha vizinhança. Gente se matando, Bolsas caindo. A Aids. O governo brasileiro. A falta de dinheiro. Mas aqui, nesta praia, sob este sol, com este ventinho de primavera correndo vez que outra pelo corpo, como caldo sendo passado num assado para ele não secar, a vida é outra coisa. Uma praia tem isto de bom. A gente tira a roupa e, de repente, está em contato com as coisas básicas da existência. Sente a areia sob os pés nus. Sente o chão do planeta. Nada entre você e a Teraa. Nem asfalto nem sola de sapato. O cheiro do mar. O cheiro antigo do mar. Quantos cheiros do nosso dia-a-dia são os mesmos cheiros que um homem primitivo conhecia? Pouquíssimos. Só os cheiros naturais. O mar, o mato, a terra molhada pela chuva, os cheiros do próprio corpo. Bom, pensará você, eu estou cheirando a loção de barbear, desodorante e creme bronzeador, coisas que o homem primitivo não usava. Se por alguma mágica eu fosse transportado neste minuto para a Pré-história, causaria uma sensação nas cavernas. Por causa do calção e dos óculos escuros, claro, mas principlamente por causa do cheiro. Os pré-homens me cercariam aspirando forte. Como eu explicaria ter o cheiro de um campo florido? Mas este cheiro de mar é o mesmo desde o começo do mundo. Quando tira a roupa na praia, o home se despe, simbolicamente, das camadas de civilização que impedem o seu contato direto com a natureza, ah! vida boa. Só não tiro o calção também porque, afinal, há as famílias. Aqui nada pode me atingir. Estou em casa, entre os elementos. Sou um molusco no meu habitat. Respiro o bom e farto oxigênio posto no mundo justamente para o meu sustento. Ninguém me consultou, mas eu não mudaria este arranjo por nada. Deus, o primeiro autocrata, fez o mundo como bem quis, sem ouvir as beses, sem plebiscito. O que, pensando bem, foi a nossa sorte, pois, se o Criador tivesse optado pelo método democrático, o universo não estaria pronto até hoje e estaríamos perdendo todos os bons seriados na TV. Vivemos no mundo como ele nos foi dado e ainda não ouvi ninguém chamar o processo de facismo divino. Eu, pelo menos, não me queixo. Acho o universo um barato e não faria o mundo diferente, apesar de concordar que certas coisas – Saturno, por exemplo, e todo o repertório de Julio Iglesias – são de gosto duvidoso. Já o morango, arco-íris, a estrutura molegular, trigal, mulher, estrela-cadente – olha, Deus: gênio. Estou bem, estou protegido. Aqui, deitado nesta areia cálida, sinto o meu planeta se mexer com a doce familiaridade de um berço embalado. Somos uma raça antiga, temos um velho acerto com esta velha bola que gira em torno do velho…

– Você leu sobre a capa de ozônio?
– O quê?
– Desculpe, estava dormindo?
– Não, não. Capa de quê?
– Ozônio.
– Que que tem o ozônio?
– Descobriram que está desaparecendo.
– Como desaparecendo?!
– Acabando. É a capa de ozônio que filtra os raios solares e impede que eles nos façam mal. Descobriram que tem um buraco na capa de ozônio e ele está aumentando.

E agora?, pensará você, juntando suas coisas, toalhas, revistas, família, para fugir do sol. Só faltava esta. A crise chegou à estratosfera. Emigrar para onde?

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Bem, se você não ouviu nosso podcast esta semana, aqui estou, como havia dito, tirando o atraso com as crônicas:

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Eva

Na velha questão sobre a origem da humanidade, eu defendo o meio-termo. Um empate entre Darwin e Deus. Aceito a tese darwiniana de que o Homem descende do macaco, mas acho que Deus criou a mulher. E nós somos a consequencia daquele momento trágico em que o proto-homem, deslocando-se de galho em galho pela floresta primeva, chegou à planície do Éden e viu a mulher pela primeira vez.

Imagine a cena. O homem-macaco de boca aberta, escondido pela folhagem, olhando aquela maravilha: uma mulher recém-feita. Como Vênus recém-pintada por Boticelli, com a tinta fresca. Eva espreguiçando-se à beira do Tigre. Ou era o Eufrates? Enfim, Eva no seu jardim, ainda úmido da criação. Eva esfregando os olhos. Eva examinando o próprio corpo. Eva retorcendo-se para olhar-se atrás e alisando as próprias ancas, satisfeita. Eva olhando-se no rio, ajeitando os longos cabelos, depois sorrindo para a própria imagem. Seus dentes perfeitos faiscando ao sol do Paraíso. E o quase-homem babando no seu galho. E, com muito esforço, formulando um pensamento no seu cérebro primitivo. “Fêmea é isso, não aquela macaca que eu tenho em casa.”

Há controvérsias a respeito, mas os teólogos acreditam que quando Eva foi criada por Deus tinha entre 19 e 23 anos. E ela reinou sozinha no Paraíso por duas luas. E, instruída por Deus, deu nome às coisas e aos bichos. E chamou o rio de rio e a grama de grama, e a árvore de árvore, e aquele estranho ser que desceu da árvore e ficou olhando para ela como um cachorro, de Homem. E quando o Homem sugeriu que coabotassem no Paraíso e começassem outra espécie, Eva riu, concordou só para ter o que fazer, mas disse que ele ainda precisaria evoluir muito para chegar aos pés dela. E desde então temos tentado. Ninguém pode dizer que não temos tentado.

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Fim de semana, hora de mais um texto Veríssimo!

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A Verdade

Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pela águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancava o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margaridas. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:

– Agora me lembro, não era um homem, eram dois.

E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:

– Então está com o terceiro!

Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.

– Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida – gritaram os aldeões – Matem-no!
– Esperem! – gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. – Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu!

E apontou a donzela, diante do escândalo de todos.
O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo: “Já que meus encontos não o seduzem, este anel comprará o seu amor.” E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.
Todos se viraram contra a donzela e gritaram: “Rameira! Impura! Diaba!” e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.
Antes de morrer, a donzela disse para o pescador:

– A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?

O pescador deu de ombros e disse:

– A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.

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\o/ Ótimo conto do Veríssimo!! XD Esse livro é sensacional, não é a toa que ficou entre os mais vendidos por tanto tempo.

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Fim de semana é dia de uma crônica de Luis Fernando Veríssimo:

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Ovo

Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.

Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima notícia será que bacon lima as artérias.

Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz.

Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema… Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.

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Hoje estou com humor para um crônica 🙂
Selecionei uma curtinha de um dos melhores livros publicados do Veríssimo:

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Aniversário

Ruy e Nara foram para a cama na hora de sempre. Ruy pegou seu livro. Mas a Nara queria conversar.

– Meu bem…
– Mmmmm?
– Sabe que dia é hoje?
– Quinta.
– Do mês.
– Ahn… Dezoito.
– E então?
– Então, o quê?
– Pense bem. É um aniversário.

Meu Deus, pensou o Ruy. Esqueci o nosso aniversário de casamento outra vez, como no mês passado. Mas se tinho sido no mês passado, não podia ser agora. O aniversário dela também não era. Ou era?

– Que aniversário? – perguntou.
– De uma coisa que aconteceu há muitos anos…
– Muitos anos?
– Antes do nosso casamento.
– Não consigo me lembrar.
– No sofá da minha casa…
– No sofá da sua casa?
– Lembrou agora?

Seria possível? A Nara dera para aquilo, agora. Ele forçou um sorriso, fez um ruído indefinido e voltou à sua leitura. Mas ela insistiu.

– Meu bem…
– Mmmmm?
– Vamos comemorar?
– Vamos – suspirou o Ruy, colocando o livro sobre a mesa-de-cabeceira.

Virou-se para a mulher. Os dois se beijaram. Depois Ruy pegou a livro outra vez. Nara protestou:

– Mas só isso?
– Só isso o quê?
– Só um beijo, Ruy?
– Se eu me lembro, naquele dia foi só um beijo.
– Sim, mas…
– Eu não insisti? Não pedi mais do que um beijo? E o que foi que você disse?
– Eu disse “não”.
– Sua exatas palavras. “Não.”
– Mas depois eu deixei, Ruy.
– Dois meses depois. Dois meses e meio!
– Ah, Ruy…
– Não.
– Então vamos comemorar o que aconteceu dois meses depois.
– Eu, nessas, coisas, sou ortodoxo. Aniversário é no dia!

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Link desta matéria mudou de endereço. Ela pode ser acessada a partir deste link:

http://www.portallos.com.br/2008/05/11/cronicas-verissimo-habito-nacional/

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Em caráter especial, os leitores do blog poderão ler a primeira crônica do novíssimo livro do Veríssimo. Recebi o livro hoje. Já a primeira crônica é fantástica! Não podia deixar passar a chance de promover o novo livro. Por isso já aviso, essa é a única crônica que será publicada aqui do livro novo. A idéia é promover ele e não colar na internet. A série só continua sendo publicado se as pessoas comprarem. Ele nem é caro. R$ 23. Por isso, gostou? Prestigie o autor e compre o livro. Gostou mais ainda, corra atrás dos livros passados da coleção, apesar de muitos estarem esgotados em muitos lugares (e por isso eu publico algumas crônicas aqui eventualmente).

E não se preocupem, as crônicas mais antigas continuarão saindo aqui uma vez por semana. Hoje é só uma esquentanda no que há de novo. \o/

Recriação

Deus suspirou. Estava cansado. Há bilhões de anos, quando era mais jovem e ambicioso, a idéia de criar um Universo não lhe parecera absurda. Agora se arrenpendia. O empreendimento fugira ao seu controle. Não conseguia se lembrar nem de quantas luas tinha Saturno. Estava definitivamente ficando velho.

Olhou em volta da mesa de reuniões. Sua presença naquela Comissão de Recriação era dispensável. Como diretor presidente, tinha a última palavra, mas as decisões eram tomadas pela Sua assessoria. Aqueles jovens tecnocratas pensavam que tinham a resposta para tudo. Queriam tornar o Seu projeto mais moderno e dinâmico. Trabalho mesmo fora o d’Ele. Criara tudo literalmente do Nada. Eles nem eram nascidos. Mas paciência. Precisava acompanhar os tempos. Vetou a proposta do assessor de RP, para que todos se unissem numa oração, e mandou começarem os trabalhos. Odiava o puxa-saquismo.

– Quanto tempo levará a Recriação? – perguntou.
– Bem…

O coordenador hesitou. O Velho, como sempre, queria respostas simples e diretas. Com Ele era tudo luz, luz, trevas, trevas. Mas as coisas não eram mais tão simples.O direto da Divisão de Obras interveio:

– Precisamos fazer uma análise de custos. Depois, um organograma. Um fluxograma. Um…
– Eu fiz tudo em seis dias – interrompeu o diretor presidente. – E sozinho. Só descansei no domingo. No meu tempo não existia semana inglesa.

Lá vinha o Velho outra vez com suas reminiscências. Está bem, ninguém negava o Seu valor. Mas o tempo dos pioneiros já passara. Agora era o tempo dos técnicos. Dos especialistas.

– Acho que devíamos começar fechando a Terra – disse o diretor financeiro.

Aquele era um assunto delicado. O Velho tinha uma predileção especial pela Terra. Inclusive por questões familiares. mas Ele ficou em silêncio. O diretor financeiro continuou:

– Acho que a Terra já deu o que tinha que dar. Seus recursos estão esgotados. Não é mais rentável. Não há como recuperá-la. Devemos fechá-la antes que comprometa todo o grupo.
– Você quer dizer simplesmente liquidá-la?
– Isso. Nosso representante lá, o papa, receberia uma indenização. Mas não vejo problemas maiores. E teríamos o que descontar do Imposto de Renda.

O assessor de RP mostrou alguma preocupação.

– Em termos de imagem, pegaria mal.
– Por quê? – perguntou o diretor de pesquisa. – Já eliminamos milhões de outros planetas, alguns bem maiores do que a Terra. Não passa um dia em que não explodimos uma estrela.
– Sei não, sei não…
– Administrar um Universo é um processo aético, meu caro. Temos um projeto a cumprir, metas a serem alcançadas. Não podemos ficar nos preocupando com cada planetinha.
– O problema foi o tipo de colonização escolhido para a Terra… – arriscou o diretor financeiro, olhando com o rabo dos olhos para o Velho. – Desde o começo, com aquele casal, já dava para ver que não daria certo…
– Quem sabe – sugeriu o assessor de RP – se refaz a Terra em outros moldes, mais empresariais? Dias mais longos, para aumentar a produtividade. Uma nova injeção de petróleo, para melhorar sua vida útil.
– Esqueça – disse o diretor financeiro. – A Terra não tem mais volta. Foi muito mal administrada. está falida. Só estaríamos prolongando a sua agonia, com subsídios. Proponho o fechamento.

A proposta foi aprovada por maioria. Passaram a discutir o formato que teria o novo Universo. A idéia era aumentar a centralização, acabar com a expansão constante para facilitar a administração e cortar os custos de manutenção…

Na cabeceira da mesa, o Velho parecia dormir.

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Eu ainda não acredito. O último livro de Veríssimo com crônicas da Editora Objetiva saiu em 12/2005, o livro “Orgias”, na qual já publiquei uma crônica aqui no blog. Estou a mais de 2 anos esperando que a coleção continue. E, finalmente, acabou de chegar as livrarias esse mês de Maio o livro:

“Mais Comédias para Ler na Escola”

Já estou no Submarino (é eu sei, a mesmo loja virtual, que me sacaneou com uma máquina digital) e vou pedir a minha edição. O preço lá é R$ 23,90.
O livro tem 144 páginas. Maior que o Orgias, que tem 136.

No site da Editora Objetiva (Clique Aqui) tem um trecho do livro e o texto abaixo:

Depois do sucesso de Comédias para se Ler na Escola, que vendeu mais de 300 mil exemplares, chega às livrarias nova coletânea de crônicas de Luis FernandoVerissimo voltadas para jovens

Mais Comédias para Ler na Escola reúne crônicas de um dos mais respeita-dos cronistas brasileiros selecionadas por Marisa Lajolo, professora de literatura há quarenta anos. Com textos capazes de despertar nos estudantes o prazer e a paixão pela leitura, a publicação, voltada para o público adolescente, traz uma seleção de crônicas que deixam claro por que Verissimo é um dos autores preferidos dos jovens brasileiros. São textos curtos e fáceis de ler que combinam duas das principais carac-terísticas do escritor gaúcho: a inteligência e o bom humor.

Como Marisa observa em seu texto “O cronista no coração das coisas”, na a-presentação da obra: “Se livro fosse remédio – que tem bula e rótulo -, aqui se leria que estas Mais Comédias para Ler na Escola não têm contra-indicação. Na escola ou em casa, lendo por iniciativa própria ou porque a escola o adotou, este livro só tem indicações a favor. Todo mundo sai ganhando: lendo porque-o-professor-mandou-e-vai-cair-na-prova ou porque se sabe que ler qualquer livro de Luis Fernando Verissimo é uma grande experiência de leitura, estas Mais Comédias para Ler na Escola são garantia de boas risadas e de boa leitura. Que não fica menos divertida ao se acompanhar de alguma reflexão, como a que aqui também se inspira. O que não é pouco, não é mesmo?”

Algumas das crônicas do livro tratam de temas que estão ligados diretamente à juventude, como o martírio do vestibular (que Verissimo revela nunca ter enfrentado) e a relação entre pais e filhos. Outras, igualmente divertidas, abordam assuntos diversos, indo da importância da primeira linha dos romances a paranóias envolvendo lingüiças calabresas. Em todas elas, uma qualidade que só os grandes cronistas possuem: a capacidade de buscar o inusitado, o engraçado e o lírico no cotidiano.

Esta nova seleção reafirma o talento Luis Fernando Verissimo para ajudar os novos leitores a mergulhar de cabeça no universo da literatura. Em Mais Comédias para Ler na Escola, o autor mostra, usando uma linguagem clara e com ótimas tiradas, que o cotidiano é menos normal do que parece – e que o banal muitas vezes pode ser mais interessante (e divertido) do que o extraordinário.

O autor:

Luis Fernando Verissimo é um dos autores mais queridos da literatura brasileira. Gaúcho de Porto Alegre, suas crônicas entram diariamente nas casas de todo o Brasil, através dos jornais, e seus livros são amplamente adotados pelas escolas. Autor de mais de sessenta livros – traduzidos em 11 países -, sua obra está sendo inteira-mente relançada, com novo tratamento editorial e gráfico, na série “Ver!ssimo”, da Editora Objetiva.

Seleção das crônicas:

Marisa Lajolo é mestre e doutora pela USP, pós-doutora pela Brown University, nos Estados Unidos, e professora titular de Teoria Literária da UNICAMP. Além de suas atividades de pesquisa e de sala de aula, Marisa também se destacou na organização das antologias de alguns dos mais importantes autores nacionais.
 

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Desta vez, a crônica vem do livro:

Esse livro é excelente, as crônicas dão até água na boca pela maneira que Veríssimo trata a culinária. Vamos com uma crônica curtinha porque ainda tenho uma excelente notícia a publicar sobre o autor e seus livros.

O come e não engorda

Ninguém é mais admirado ou invejado do que o come e não engorda. Você o conhece. É o que come o dobro do que nós comemos e tem metade da circunferência e ainda se queixa:

– Não adianta. Não consigo engordar.

O come e não engorda é meu ídolo. Só não lhe peço autógrafo por inibição. Meu sonho é emagrecer e depois nunca mais engordar, por mais que tente. Quando eu diminuir, quero ser um come e não engorda.

Não se deve confundir o come e não engorda com o enfastiado. Este pertence a outra espécie. Não é humano. Pode até ser melhor do que nós, um aperfeiçoamento, mas não é humano. Afinal, o que une a humanidade é o seu apetite comum. Não é por nada que partilhar da comida com o próximo tem sido um símbolo de concórdia desde as primeiras cavernas. Até hoje as conferências de paz se fazem em volta de uma mesa onde a comida, se não está presente, está implícita. Desconfie do enfastiado. Ele será um agente de outra galáxia ou um poço de perversões, ou as duas coisas. De qualquer maneira, mantenha-o longe das crianças. Quando encontrar alguém na frente de um prato cheio só emparelhando as ervilhas com a ponta da faca, notifique os órgãos de segurança. É um enfastiado e pode ser perigoso. Sempre achei que as pessoas que comem como um passarinho deviam ser caçadas a bodoque. O seu fastio, inclusive, é um escárnio aos que querem comer e não podem.

Já o come e não engorda compartilha do nosso apetite, só não compartilha das conseguências. Ele repete a massa e não tem remorso. Pede mais chantily e sua voz não treme. Molha o pão no café com leite! E ainda se queixa:

– Há 15 anos tenho o mesmo peso.

O come e não engorda só parou de mamar no peito porque proibiram sua mãe de ficar junto no quartel. Quando o come e não engorda nasceu, uma estrela misteriosa apareceu no Guide Michelin de restaurantes para aquele ano. O come e não engorda caminha sobre a sauce bernaise e não afunda. Multiplica os filés de paixe à meunière e os pães de queijo. Por onde o come e não engorda passa, as ovelhas se atiram para trás e pedem “me assa!”. O come e não engorda tem o segredo da Vida e da Morte e, suspeita-se, o telefone da Bruna Lombardi. E ainda se queixa:

 – Tenho que tomar quatro milk-shakes entre as refeições. Dieta.

Dieta! E você ali, de olho arregalado.

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